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Publicado por :   Associação Ginecologistas   |   Dia : 14-05-2021   |   Gostar   Inicie a sua sessão para gostar e partilhar esta dica 274

Violência doméstica culmina em aborto

Jovem rapariga de 25 anos

Na sequência dos depoimentos que a AMOG tem estado a recolher de mulheres que tiveram diferentes experiências com o aborto, e com o objectivo de enfatizar a necessidade urgente de reunir esforços por parte de todos os espectros da sociedade, trazemos desta vez a história de uma mulher que sofreu um aborto involuntário, como consequência de violência doméstica.


Lurdes Massango é o nome fictício da nossa entrevistada, de 25 anos de idade, natural de Inhambane e estudante do 3º ano do curso Superior de Medicina Preventiva.

Há 2 anos Lurdes entrou numa relação marital com um homem, tendo pouco depois engravidado. Entretanto, a relação, bastante abusiva devido aos maus tratos físicos, verbais e psicológicos, não era saudável. Lurdes não tinha consciência do facto, mas sofria violência doméstica. As agressões físicas iniciaram quando arrancou o período escolar, justificados por ciúmes dos laços que ela ia formando no seio da comunidade académica. Segundo Lurdes, o parceiro agredia-a, pois estava convencido de que esta mantinha relações amorosas com os colegas e professores.

A relação do casal resultou numa gravidez, mas o desfecho não foi uma experiência agradável pois grávida de 7 meses, viveu o acto mais violento da relação perpetuado pelo seu parceiro Emílio. “Naquela ocasião ele empurrou-me para o chão e, com a ajuda de um barrete de ferro, continuou a agredir-me de forma violenta, direccionando à barriga e questionava-me sobre a paternidade da criança, pois ele duvidava muito da minha fidelidade”, explicou visivelmente emocionada.

Como consequência disso, Lurdes sofreu um aborto provocado por violência excessiva e então foi levada, com ajuda de familiares, para receber a devida assistência médica. 

Embora Lurdes tenha se dirigido ao hospital imediatamente após o sucedido, onde foi realizado procedimento de evacuação da cavidade uterina para aborto incompleto, o cenário que viveu traumatizou a família e a comunidade. 

Questionada sobre o momento no qual ela esteve ciente de que desejava construir família com Emílio, Lurdes explicou que nunca desejou construir família. "Para mim estava evidente que ele não era a pessoa certa para ser o pai dos meus filhos, mas quando fiquei de barriga não sabia que podia interromper caso não desejasse a criança naquele ambiente. Esta entrevista é o meu primeiro contacto sobre este direito.” Acrescentou que “nunca fui informada sobre a legalidade do aborto e nem sobre a sua gratuidade no tempo previsto pela lei.” 

Quando confrontada sobre a história de Lurdes e situações do género, a Dra. Eliana Coelho, membro da AMOG, referiu que “o aborto provocado e violência doméstica são grandes problemas de saúde pública, pelo impacto que têm na saúde física e mental das mulheres.” Disse ainda que “neste caso em particular, a mulher foi vítima de violência doméstica, uma agressão física que culminou em aborto. Um outro grande problema relacionado a violência doméstica é que, muitas vezes e por desconhecimento da lei do aborto, a mulher se coloca em situação de perigo recorrendo ao aborto inseguro para interromper uma gravidez indesejada e que já se encontrava em risco por consequência da violência a qual é submetida.”

A verdade é que tal como a nossa entrevistada, existem muitas outras mulheres e raparigas que se dirigem às unidades sanitárias para receber assistência médica e finalizar um aborto que tenha sido provocado por razões diversas, entretanto estas mulheres continuam inconscientes de que a interrupção da gravidez, nos termos da lei, não se cinge a casos do género, sendo também permitida a realização do aborto de uma gravidez indesejada, quando em conformidade com os requisitos dispostos no artigo 3 do Diploma Ministerial nº 60/2017 de 20 de Setembro referente às Normas Clínicas sobre Aborto Seguro e Cuidados Pós-Aborto. É nesse contexto que o Projecto de Advocacia Pelo Aborto Seguro, implementado pela AMOG, tem estado a trabalhar com vista a consciencializar e educar não só os profissionais de saúde, como também as mulheres e a sociedade em geral.

 

 



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