Image


Publicado por :   Associação Ginecologistas   |   Dia : 06-04-2021   |   Gostar   Inicie a sua sessão para gostar e partilhar esta dica 299

“...naquele dia estava mal, por isso nunca mais vou fazer aborto em casa!”

Flora Armindo, de 22 anos de idade, numa história sobre aborto inseguro.

Flora Armindo, de 22 anos de idade, natural do Distrito de Lugela província da Zambézia, conta que teve um aborto voluntário de uma gravidez de aproximadamente 2 meses, quando tinha 15 anos de idade.


Simpática e sorridente, Flora explicou que ficou grávida do seu namorado, mas que na altura frequentava a 6ª classe na Escola Primária Completa de Lugela Sede e a vontade de estudar era tanta que teve que recorrer a um abordo voluntário em casa.

“Era uma coisa triste… Namorávamos às escondidas enquanto eu ia a escola. De repente, fiquei um, dois meses sem ter a menstruação, as minhas amigas desencorajaram a seguir essa via” – lembrou Flora. “Eu gostava do meu namorado e ele de mim, mas aquele momento não era próprio para termos uma criança.” 

Sobre como teve ajuda, ela explicou que embora as amigas não a apoiassem, ela encontrou, dentro do seu próprio círculo de relações, alguém que lhe encaminhou para a pessoa que lhe vendeu o remédio para realizar o aborto.

Em depoimento para a AMOG, Flora relatou detalhadamente os eventos do dia em que realizou o aborto, recorrendo à um remédio chamado sassacura, produzido por plantas locais. “Numa tarde fui a casa da minha amiga. A avó dela entregou-me um remédio que disse para dividir em 3 porções. Fiz como ela disse: esfregar a barriga com uma das porções, beber a segunda porção e entornar o resto com uma concha na barriga”, contou Flora.

A jovem começou a sentir-se mal por volta das 17 horas, e ficou sob alerta até as 20 horas, na esperança que alguma coisa saísse do seu ventre. Nessa altura, decidiu dirigir-se à casa do seu avô que, de tantos gritos da sua neta, acabou insistindo para informarem à mãe do que se passava e irem ao hospital. “Sentei, sentei, sentei, eu a ter menstruação… até as 23 horas, quando a coisa caiu”, disse Flora que, aflita e com dores, passou horas na casa de banho, a sangrar, até que algo saiu. Infelizmente para Flora, tratava-se de sangue coagulado e, de tão fraca que estava, a família acabou chamando uma ambulância que lhe evacuou para o Hospital Rural de Lugela onde foi feita uma “raspagem”.

Questionada se faria, de novo, um aborto inseguro, Flora não hesitou em dizer que “jamais optaria pelo mesmo caminho” e comentou que aconselha as mulheres à sua volta, e não só, a dirigirem-se ao centro de saúde quando necessitarem de serviços de aborto.

Flora foi uma das raparigas, parte de um universo vasto, que não estava devidamente informada sobre como interromper uma gravidez indesejada e que colocou a sua saúde em risco, em prol da sua educação, do seu futuro. Percebe-se, com este caso, que ainda há muito trabalho para descriminalizar o aborto seguro e educar a sociedade sobre as normas clínicas aprovadas e prescritas no Boletim da República de Moçambique.

A partir do momento em que a mulher se vê diante de uma gravidez indesejada, alguns aliados devem ser imediatamente acionados e uma rede de apoio formada. Esse processo engloba desde os interlocutores com quem ela conversa para a construção da decisão sobre a continuidade ou não da gravidez, até aos provedores que auxiliam na execução do aborto.

A AMOG, através do seu Projecto Pelo Aborto Seguro, tem como um dos seus objectivos atingir um número abrangente de raparigas e mulheres e fazer a conscientização sobre o aborto seguro, de modo a evitar que mais mulheres morram por optarem por um aborto inseguro (fora da unidade sanitária e ou por pessoal não treinado). A morbi e mortalidade maternas por complicações do aborto inseguro pode estar relacionada a barreiras socioculturais, económicas, políticas, legais e institucionais que limitam o livre acesso ao aborto seguro e legal.

 



Gostar   Inicie a sua sessão para gostar e partilhar esta dica